O ectoplasma nos sintomas da medicina clássica


Minhas observações sobre ectoplasma começaram há alguns anos quando, na época em residência médica em psiquiatria, observava sintomas que nem de longe imaginava que pudessem algum dia ter um enfoque diferente.

Presenciei pacientes que apresentavam quadros do chamado transtorno de somatização, descrito pelas classificações psiquiátricas pelos seguintes sintomas: globus esofageanus ou histericus, que, traduzindo, nada mais é do que aquela famosa bola ou “nó” na garganta, presente também em muitas pessoas durante situações claras de grande tensão emocional.

Outro sintoma é a tontura, que muitas e muitas vezes era denominada pelos colegas médicos como labirintite, assim como a sensação do coração disparando, com ou sem aquela opressão no peito, a que muitos chamam “angústia no peito”. Era comum a falta de ar súbita, com sensação de sufoco. A sensação de queimação ou ardência na região genital também pode ocorrer.

Muitas dessas pessoas também eram portadoras de dores articulares, geralmente nas articulações das mãos; às vezes confundindo-se até com a doença artrite reumatóide, com a diferença de que os resultados dos exames eram negativos e também não respondiam a medicações antiinflamatórias.

Uma boa parcela desses pacientes apresentava ainda dores generalizadas pelo corpo e uma sensação de dor quase que constante nos músculos. Parecia que possuíam uma sensação de peso acompanhando-os; geralmente acontecia nos ombros e nas panturrilhas (a chamada “batata da perna”). Também era comum que se encontrasse nessas pessoas dor de cabeça, muitas vezes com embaçamento visual, assim como náusea ou dor abdominal.

Lembro-me de um caso muito interessante, de uma senhora de 36 anos, que vou chamar de Gioconda. Era portadora de uma síndrome da tensão pré-menstrual (STPM) digna de fazer correr qualquer marido que não fosse masoquista. Possuía um histórico muito interessante no qual, já havia anos, apresentava queixa de ardência ao urinar. Passara por vários médicos urologistas, e mesmo ginecologistas; em nenhum exame de urina fora constatada infecção, tanto na chamada cultura de urina, para verificar se havia germes que poderiam crescer, como também não se constatavam sinais infecciosos no exame microscópico.

Gioconda passou por um colega médico que lhe diagnosticou “estenose” de uretra, que significa um estreitamento do canal urinário que conduz a urina da bexiga para o exterior. O quadro chamou-me muito a atenção porque a paciente foi submetida, por oito vezes, a sessões de dilatação da uretra. No entanto, para que esse estreitamento acontecesse, era necessário que houvesse um processo inflamatório que deixasse cicatriz.

Uma causa muito comum de ocorrências como essa seria a doença sexualmente transmissível conhecida por gonorréia. Mas Gioconda não possuía sequer antecedentes de “pular o muro”, assim como seu marido, pois era idoso e já não se relacionavam fazia tempo. Como esta, outras hipóteses também foram descartadas, por serem incabíveis, visto que não

possuía queixas ou outros sinais antecedentes que originassem a estenose. Mesmo após as dilatações uretrais, mantinha a queixa de ardência ao urinar. Suas queixas não apresentavam uma base fisiológica conhecida.

A paciente também se queixava de uma tontura que muito a “atacava”. Havia um mês, estivera internada por cerca de dez dias para tratamento de um quadro de “labirintite” – conforme mencionava – e que não respondia a medicação alguma. Saiu em uso de um medicamento chamado clonazepan, o qual não é mais do que um ansiolítico (vulgo: “calmante”) de forte potência, mas que melhorou os sintomas que lhe assombravam a saúde.

Quando me procurou, na qualidade de médico residente em psiquiatria, apresentava-se chorosa e desanimada. Seu humor oscilava: ora estava bem, momentos após caía em prantos; a tristeza e o pessimismo invadiam-lhe o coração e espalhavam-se na sua alma; não possuía controle de suas emoções. Sentia-se mal quando apareciam amigas que lhe contavam fatos desagradáveis; às vezes, tinha até a sensação de que o corpo fora surrado. Sentia falta de ar, coração disparando no peito, nó na garganta, dores articulares e crises de enxaqueca que lhe atormentavam o trabalho. Dizia que era mais fácil perguntar-lhe onde o corpo não doía. Tinha a sensação de corpo inchado. O estômago era-lhe nauseoso pela manhã. Às vezes, tinha dores que a obrigavam a ir ao pronto-socorro, mas quando investigada pelos raios X ou endoscopia de estômago, nada era verificado. Sofria de “constipação intestinal” (o popular “intestino preso”), não raro demorando até cinco ou mesmo sete dias para poder evacuar à custa de laxantes ou mesmo de lavagens intestinais.

Na época, eu ainda era um residente em psiquiatria e o quadro ficou marcado em minha mente. Tinha em mãos um caso “modelo”, uma vez que muitas pessoas apresentavam esses mesmos sintomas, porém com intensidade e freqüência variadas.

As melhoras que Gioconda apresentava em relação ao tratamento das alterações nervosas, com os psicotrópicos que lhe prescrevi, pareciam não se refletir totalmente nos sintomas físicos que apresentava. Era uma luta para tentar descobrir o que fazer – o psiquismo estava de fato mais serenado. Entretanto, uma gama de sintomas, como a sensação de inchaço pelo corpo, uma certa indisposição corporal, à qual se dá o nome de lassidão, existia e persistia; parecia que a cabeça aumentara de tamanho e apresentava uma sensação de balanço; além disso, ocorriam-lhe náuseas no período matinal.



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Essa foi a situação clínica que me despertou para que estudasse melhor tal diagnóstico. Pude observar, pela experiência repetida com pacientes, que muitas pessoas possuíam essa variedade de sintomas. Todas pareciam apresentar um “quê” de medo de enfrentar a vida: demonstravam ser pessoas que não se decidiam por seguir um rumo no viver; tinham certa tendência a começar cursos ou projetos de vida e não terminar. Logicamente, a vida parecia-lhes algo frustrante; perdiam o prazer no que realizavam, embora se queixassem de uma sensação de que lhes faltava algo que, como costumo dizer, “é um não sei quê que está não sei onde, mas incomoda e deixa uma gastura na mente”; era como um “vazio existencial” a lhes atormentar a paz diária.

Esses sintomas se revelavam muito mais nos fins de semana, quando se ausentavam do trabalho e se viam assombradas pelo fantasma de suas próprias mentes, a pensar na vida, nos problemas e na incerteza do futuro.

No curso do tratamento médico, uma parcela significativa dessas pessoas desistia. Quando voltavam ao tratamento, traziam os mesmos sintomas, só que agora de modo mais intenso e freqüentemente acrescidos de sintomas depressivos; desvalorizavam-se e possuíam uma queixa acirrada contra os próprios erros. Passavam a se queixar demais da vida e dos outros. A frase “nada tá bom” era uma característica desses pacientes.

Na época, tudo se limitava a uma descrição sintomática, pois eu sequer suspeitava da influência do ectoplasma.

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