As Trevas Existem

Atualizado: Mar 7




Ojeriza ao trabalho —

Conselhos de Olavo Bilac


Abrindo, ao acaso, um livro, o sr. Mário Barbosa, vice-presidente do Centro Espírita Caridade, Luz e Amor, leu e comentou um trecho de Allan Kardec. Após, a sra. Emília Torres, improvisando uma prece, declarou aberta a sessão, às oito horas da noite, no primeiro andar do sobrado n. 198 da rua da Alfândega.

Numerosos médiuns, dos dois sexos, cercavam a mesa, tendo sido considerados como atuações de protetores os seus primeiros transes. Iniciando-se os chamados trabalhos de caridade, uma senhora gorda, cuja face não víamos, começou a agitar-se na cadeira, pedindo asilo contra perseguidores policiais.

— Não tenhas receio. Não te entregaremos à polícia. Dize-nos, porém, se és criminoso.

— Nao sou criminoso. Não fiz mal a ninguém.

— Dize a verdade — pediu d. Emília. — Se és criminoso, nós te esconderemos num lugar especial. Se não, ficas aqui, conosco.

Sustentou-lhe sua passagem do mundo material para o espiritual. Após argumentos, inúteis, disse:

— Eras um mulato alto e estavas na prisão, mas estás falando pelo corpo de uma mulher gorda e branca. Examina. És um espírito.

Depois de examinar-se, a médium concordou:

— Contanto que eu me escape da polícia, o resto não me importa.

Continuando a conversa, a entidade reputada presente, após haver confessado as culpas de sua vida criminosa, ante conselhos severos formulados com doçura, protestou:

— Isto é uma brutalidade. Eu morri, deixem-me em paz.

Às insistências de d. Emília, exclamou:

— Para me ver nestes trabalhos, era melhor não ter vindo aqui.

Em seguida, assustada, exclamou:

— Estou perdido. Vim cair no inferno. O inferno é aqui.

— Não. Aqui é um laboratório.

— Então, não compreendo esta droga.

Explicou-lhe d. Emília que teria de resgatar as suas faltas, trabalhando com elevação.

— Mais trabalho do que eu tive na vida? Saia?

— Trabalho diferente do que fizeste.

— Caramba! Pois ainda tenho que trabalhar!?

— Terás de resgatar as tuas culpas com as tuas obras.

— Mas esse trabalho é muito pesado?

Descrevendo a natureza desse labor, perguntou-lhe a doutrinadora se queria um guia.

— Naturalmente, pois eu não conheço nada aqui. Não posso andar por aí aos trambolhões.

Terminada essa manifestação, a médium Zenóbia, em transe, gemeu, ofegando.

— Vieste aqui só para gemer?

A médium disse alguma coisa que não percebemos e d. Emília, suavemente, como se falasse a uma tuberculosa, pintou-lhe um estado de gravidade extrema, os lances da agonia e, por fim, a morte. Silente, a cabeça entre as mãos, a médium, por algum tempo, chorou copiosamente.

Exprimia sonolento cansaço, a fisionomia do sr. João Baptista Fontes em transe:

— Em que podemos ser-lhe útil?

— Nada.

D. Emília objetou que, sem objetivo, não se entrava naquela casa. Que desejava, pois, o irmão?

Sem manifestar desejo algum, o médium disse:

— Cansaço.

— É, certamente, o cansaço da idade. O meu irmão é velho e sente, com certeza, as fadigas de uma longa existência.

— Talvez.

— Não acha que, nessa idade, depois de tanto trabalho, a morte é preferível a uma vida que se arrasta entre canseiras?

— Deus é que sabe.

A doutrinadora, dotada de uma sensibilidade que lhe marejava os olhos de pranto ao dialogar com os médiuns em transe, continuou, carinhosamente, a exaltar as vantagens da morte ante as tristezas da velhice; de súbito, interrompendo-a, o médium ergueu, num só movimento, as duas mãos, e, num longo suspiro, exclamou:

— Graças a Deus!

Compreendera o seu estado de morto e, com a fisionomia reanimada, interrogou:

— E agora?

Expôs-lhe d. Emília a teoria das reencarnações, falando-lhe de seu regresso à Terra, com outro corpo a completar o seu aperfeiçoamento.

— Não, voltar à Terra não quero.

— Que desejaria, então, buscando furtar-se ao cumprimento da lei inevitável?

— Eu quero ir para um lugar onde fique.

A doutrinadora repetiu, ampliando-as, as suas explicações sobre o desenvolvimento do mesmo espírito através de diversas existências e voltou os seus cuidados para a médium Margarida. Esta, conforme o diálogo que ouvimos, estava atuada por um malfeitor que morrera, matando.


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A médium Perpétua, em seu transe suave, desejava saber onde estava e por que tanto se rezava numa casa que não era uma igreja. Havia sido conduzida àquele lugar, mas, acrescentava, se soubesse que era para fazer oração, teria procurado uma cruz.

— Queres orar aos pés da cruz? Pois bem, verás uma cruz e mais alguma coisa. És um homem inteligente. Receberás nova luz.

O rosto moreno da médium estava suavizado por um sorriso tranquilo. Concentrou-se d. Emília e proferiu comovida prece. Num repente, d. Perpétua estremeceu e, apoiando a cabeça na parede, mostrou a face enevoada de espanto seguido de tristeza.

— Como é que eu passei desta para a outra sem saber?

Houve ainda dois transes. O da médium Maria Gonçalves e o do médium Alcides. Este, sobretudo, impressionou, pois o médium, em termos angustiosos, declarava que fora conscientemente mau e pedia preces:

— As trevas existem! As trevas existem! Eu não vejo nada e ouço gemidos!

Feitas preces especiais por essa entidade e finda a de encerramento, começaram os passes praticados por médiuns em transe e observados com espanto por pessoas que se debruçavam à sacada dos prédios fronteiros.

Conversávamos com d. Emília, vendo-a de momento a momento agitar-se, estremecendo como as médiuns no instante considerado como o da incorporação do espírito.

— Deixe estar. Não é nada. Passa.

Em meio à conversa, porém, ela, voltando-se para nós, em estado de transe, falou. Suas palavras representavam votos e conselhos como o da incorporação do espírito.

Recobrou-se d. Emília, mas, recaindo em transe, continuou:

— A médium não quer receber-me. Não pode recusar-se. Fui teu companheiro, teu amigo. Sabes quem sou?

— Não. Não sabemos.

— Olavo Bilac.

E a palavra que dizia ser a do nosso Mestre reatou os conselhos iniciados, mas d. Emília estremeceu num movimento de reação.

— Repreendam a médium. Amigo, fica com a paz de Deus.

D. Emília conseguiu, enfim, dominar-se.

— Por que se recusou a receber essa manifestação? — perguntou-lhe o sr. Mário Barbosa.

— Porque a sessão já estava encerrada.

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