As Causas da Loucura

Atualizado: Mar 7




Queria casar aos setenta anos –

Duas sessões na mesma sala


Perante cinquenta e duas pessoas, às oito horas da noite, o sr. Luiz da Silva Moraes declarou aberta a sessão da União Espírita dos Trabalhadores de Jesus, instalada no primeiro andar da rua General Caldwell, n. 173.

Feitas as preces, lido o Evangelho e recebidas as comunicações usuais, ocorreu a primeira manifestação considerada de sofredor, agitando-se, em transe, a sra. Amélia Moita, cujas palavras e gestos eram os da arrogância. Dissera a vidente, sra. Antônia Telles, tratar-se de um homem morto em desastre e desconhecedor de sua condição de extinto materialmente. Passou, então, o sr. Moraes, em termos claros, a pintar-lhe a sua situação espiritual, e a sra. Amélia, perdendo a sobrançaria, tremeu de pavor e derramou lágrimas angustiosas.

Face fechada, estampada a austeridade e a zanga, a sra. Judith Ferreira, em quem se dizia atuar um sacerdote desejoso de interromper e perturbar os trabalhos, após uma discussão estéril com o presidente, recebeu o pedido:

— Pode ficar aqui, mas fora do médium. Deixa o médium, faz favor.

Recobrou-se a sra. Judith e o sr. Moraes, dirigindo-se à sra. Lindonor Guimarães, que já estava em transe e reprimia a cólera, interrogou-a. As expressões da médium traduziam o desejo de retirar-se imediatamente e denunciavam aflição, dizendo haver errado por acaso em tal sala, quando se dirigia para outro lugar.

Não entrara por acaso, observou o presidente, mas por intervenção dos guias da casa, pois o livre-arbítrio, na Terra, está limitado pelas leis humanas e, no Espaço, pelas leis divinas.

— És um infeliz – acrescentou -, que conhece a tua situação de espírito e, conscientemente, praticas o mal, obedecendo a um irmão encarnado, que é mais infeliz e mais perverso do que tu.

Os longos debates travados entre o diretor e a médium terminaram pela assustada confissão de haver sido feita perigosa perseguição a uma pessoa viva, por quem, iludido, julgava cumprir ordens de Deus.

A srta. Pedrina Ferreira, com o rosto franzido, erguendo o braço num gesto escultural, com expressões de cólera fria, disse que procurava alguém para cravar-lhe um punhal, mas o sr. Moraes declarou que a entidade que se manifestava era a mesma que fora impedida de perturbar os trabalhos atuando sobre a sra. Judith. Mandou, pois, que o espírito da médium repelisse tal hóspede.

Em transe, serena, a sra. Antônia Telles declarou que não tinha por hábito delatar, mas que a entidade que se incorporara à srta. Pedrina era a mesma que atuara sobre d. Judith. Antes dessa denúncia, já essa médium estava em discussão com o presidente, protestando contra o silêncio reinante, pois apreciava o barulho. Produzida, porém, a declaração, a médium Pedrina, estremecendo subitamente, rompeu em acusações à outra.

— Também és um sacerdote. Também celebraste a missa.

— Mas eu não ocultei a minha condição.

Depois de haver deixado a assistência testemunhar, por instantes, a discordância das duas médiuns, o diretor da reunião fez recobrar-se aquela e, com o espírito que julgava incorporado à d. Antônia, conversou sobre ocorrências de sessões anteriores, pedindo-lhe dissesse quantos sacerdotes se haviam manifestado naquela casa desde dezembro.

— Dezesseis — contou a médium.

— Dezessete, pela minha conta — declarou o sr. Moraes.

Encerrados os incidentes dessas manifestações, ouviu a assembleia um protetor através da médium Antônia. O presidente, que havia designado o sr. Arnaldo Pacheco para fazer a prece de abertura, indicou o sr. Camillo Silva para proferir a de encerramento, terminando os trabalhos às dez horas.

À tarde, nessa mesma sala, onde também se reúnem os Obreiros da Salvação, havíamos assistido, sob a presidência do dr. Carlos Imbassahy, uma sessão em que se assinalou, por intermédio da sra. Cândida Sarmento, uma ocorrência reputada interessante.


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Em transe, fechando-se em silêncio durante largos minutos, a sra. Cândida, pelos movimentos ansiosos do busto, pelas expressões delirantes da fisionomia e pela bizarra incoerência de seus gestos, deu aos presentes uma impressão incômoda de loucura. Ao romper o silêncio, acentuou essa impressão, desconexamente apontando trens que supunha em manobras, pessoas que julgava em preparativos de embarque. Depois, confirmando-a, declarou que não estava louca, que fora encarcerada por seus parentes e que a magoavam os médicos com injeções cruéis.

Com amorosa paciência, suportando essas monótonas expansões de loucura, o dr. Imbassahy logrou convencer a médium de não estar ela privada de juízo. Nesse instante, o médium sr. Hermes Jurema, recebendo uma comunicação psicográfica, passou-a ao presidente, por quem foi lida:

“Há loucura por obsessão e loucura por enfermidade do cérebro. No primeiro caso, o espírito obsessor, penetrando o perispírito encarnado, mistura as suas ideias com as dele, ou faz com que ele, dominado por completo, o obedeça. No segundo caso, o espírito encarnado está enfermo, não pode exteriorizar as próprias ideias, variando a extravagância aparente das manifestações, segundo a gravidade da doença do cérebro. Observemos para saber de que loucura se tratava. Para ser lido diante de todos, e do espírito, e esperar que ele fale, depois — (a) De um camaradinha.”

— Estou melhor. Estou mais aliviada. As injeções do médico fizeram efeito — exclamava a médium e o dr. Imbassahy empreendia novo esforço prolongado para mostrar que a louca passara do mundo material para o espiritual.

Chegados a esse ponto, contou a médium que, sendo viúva do fazendeiro Achylino, de São Paulo, possuindo fortuna e levando uma vida insípida, quis casar-se, aos setenta anos de idade, com um moço que lhe prometia a felicidade. Meteram-na, então, os parentes, em uma casa de saúde, onde ela realmente ficou louca.

— Não estava louca? Veja bem o que diz. Então, há uma casa de saúde onde se perpetre um crime dessa ordem?

— Há! Há! Há! — afirmou, convicta, a médium, acrescentando períodos de acusação aos seus parentes.

Defendeu-os, porém, o dr. Imbassahy, alegando que uma velha rica, de setenta anos, que deseja casar-se com um moço, pode ser sinceramente considerada maluca. Respondeu a médium que reconhecia agora ser um ambicioso o seu noivo, mas que a ela lhe assistia o direito de gastar, como entendesse, o seu dinheiro, pois não tinha filhos.

Recebeu o sr. Hermes Jurema outra comunicação escrita, mas, desta vez, ao encerrá-la sem assinatura, quebrou a ponta do lápis, batendo ruidosamente na mesa. Divergia, em absoluto, numa e noutra mensagem, a letra do médium. A última dizia:

“Observar o caso. Tratava-se de obsessão; do contrário, o espírito, livre do corpo, não teria mais manifestações de loucura. Orai pelo obsessor, que está presente. Peça ao Senhor que permita a presença do obsessor num médium.”

Suspeitou-se que essa mensagem fosse, não de um amigo ou protetor, mas de alguma entidade que pretendesse dar novo rumo aos trabalhos, para que a “louca” se retirasse antes de ser de todo esclarecida.

Queixava-se a médium, desde que entrara em transe, de nada ver, apenas ouvindo. Julgou-a o dr. Imbassahy envolta em trevas, por possíveis culpas de outrora, e começou a interrogá-la sobre o passado.

— Mas isto é uma audiência?

Ante a resposta negativa, sabendo estar morta, perguntou se iam mandá-la para o inferno ou para o purgatório e se porventura ali estava Deus, para pedir-lhe contas de sua vida.

Explicada a causa do interrogatório, continuou o diálogo, chegando-se aos velhos tempos em que os escravos, sob o açoite dos feitores, trabalhavam para os brancos. A louca fora senhora de escravos, mandando castigá-los quando não labutavam a seu contento. Observando-lhe o presidente que devia arrepender-se de tais castigos, estabeleceu-se um debate verdadeiramente interessante entre a mentalidade do passado e a mentalidade do nosso tempo. A fazendeira não podia conceber que o negro não fosse propriedade do branco.

Nesse momento, entrando em transe outra médium, julgou-se presente o caboclo Quassem Baramduba, que adota o nome civilizado de Emanuel. Vinha buscar a louca para levá-la ao Espaço, mas o dr. Imbassahy, dirigindo-lhe um apelo, pediu-lhe que esperasse até a reconciliação daquele espírito com Deus. O caboclo concordou e quando o presidente recomeçou a sua doutrinação, a médium, debulhada em lágrimas, clamou:

— Ai! Depois desta chicotada, eu me arrependo.

Fê-la orar o diretor da reunião e ouvindo dela a declaração de que recuperara a visão, disse a Emanuel que verificasse como fora bom retardar a presença do espírito incorporado à médium.

Aborreceu-se o doutrinador.

— Com o amor também se vence, irmão.

Voltou, assim, a doutrinação para o severo auxiliar indiano, a quem, por fim, recomendou tratasse com brandura àquele e aos outros espíritos sofredores.

Deixou, em seguida, recobrar-se a médium em que julgava atuar a fazendeira.

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