A entidade que tocou a campainha

Atualizado: Mar 7





Foi estudar no Jardim das Oliveiras —

Depois de encerrada, continuou a sessão

Em Maracanã, na rua Santa Luíza, na casa n. 33, da avenida desse número, abriu-se, às oito horas da noite, a sessão do Círculo Espírita Trabalhadores do Senhor. Sentado, com as costas junto à parede, ao centro da mesa mediúnica, o presidente, sr. João Cândido de Oliveira, enfrentando o sr. Laudelino Pereira da Silva e uma médium, tinha à direita e à esquerda, nas cabeceiras, a sra. Maria da Silva e o sr. Aventino Teixeira. Voltado para os espectadores, no mesmo plano da presidência, um moço claro, de roupa amarela, de brim, acendia no dedo o fulgor de um anel; por trás da sra. Maria da Silva, junto à porta da rua, dando o flanco à assembleia, um casal de meia-idade ostentava também rebrilhos de joias. Enchendo a sala, os outros quinze ou vinte adeptos restantes formavam uma escala hierárquica social que oscilava, em graus ascendentes, do marinheiro de guerra e da graciosa menina do povo à faceira senhorita elegante e ao bacharel esperto.

Iniciada a parte prática dos trabalhos, a sra. Maria da Silva, agitando os braços, a cabeça e os ombros, sob passes feitos pelo presidente, penosamente entrou em um transe cujas peculiaridades eram as, em geral, assinaladas quando os adeptos acreditam que se incorpora ao médium o espírito de um sofredor. Todavia, ao descerrar os lábios, a sra. Maria declarou ser um enviado de Jesus e desejou ordem e paz aos Trabalhadores do Senhor, passando deste para outro transe.

No segundo, emudeceu por completo. O sr. João Cândido, ao vê-la em transe mudo, abriu um livro e, por uns dez minutos, leu rezas.

A médium continuou mergulhada em silêncio. Olhando-a, de relance, a presidência dava mostras de indecisão e, concentrando-se, olhos cerrados, mãos espalmadas para o alto, deixou transcorrer outro período de tempo, marcado pela respiração da médium, que se tornara ofegante. Visivelmente constrangido, o diretor dos trabalhos, enquanto o moço do anel escondia um sorriso sob o lenço e um ar de desconfiança ensombrava o casal das joias, repetiu as suas rezas e, depois, perguntou à médium:

— Que novidades há?

Não obtendo resposta, leu uma oração pelo esclarecimento, no Espaço, de seu progenitor morto; apesar de não haver interrogado a entidade julgada presente, disse-lhe:

— És um grande criminoso. Praticaste muitas faltas. Estás amarrado nos erros. Pede a Deus que te redobre as tuas dores. E é para teu bem.

Como a médium continuasse a ofegar, pediu-lhe o trabalhador-chefe:

— Descanse o seu fôlego.

— Estou sofrendo muito.

— Isso é ilusão. Você não está sofrendo nada. Você vai ser levado para o Espaço, para ser esclarecido no Jardim das Oliveiras e voltar para confabular conosco.

Voltou a médium ao seu ofegante silêncio e o sr. João Cândido, apertando a mão ao médium negro Laudelino Pereira da Silva, perguntou-lhe:

— Que há?

— Sofro.

— É por sua culpa.

E o presidente, com rispidez, discorreu sobre os indefinidos crimes que lhe atribuía, terminando por dizer-lhe:

— Estás abaixo da lagarta que não voa. Tu também não avoas. Estás como eu, que estou amarrado no pedestal da carne.

O moço do anel, à socapa, sorria, e o casal das joias, desconfiado, fitava as tábuas do assoalho.

Apoiando-se sobre os calcanhares, alternadamente, como se quisesse erguer-se e levantando ora um, ora outro braço, Laudelino, a chorar, rompeu em brados:

— Glória ao Pai! Santa Virgem Maria, me socorre, Meu Jesus, olha para este vosso servo. Glória ao Pai e a Deus!

Recobrou-se e, espantado, passou o lenço nos olhos, secando o pranto. Já em transe, o sr. Aventino Teixeira afirmava que queria era fazer o mal. O presidente, assumindo a palavra, entrou a dissertar sobre o bem e o moço de anel, desinteressando-se dos casos mediúnicos, enterneceu os olhos para as rendas de um vestido solteiro.

— Eu tenho é vontade de estrangular! — confessou o médium.

— Tu deves estrangular é as tuas ideias más!

— Eu quero é virar isto em frege!

— Que linguagem é essa! Nós não compreendemos esse modo de falar!

Com amável presteza, o espírito raivoso concordou em submeter-se e, rezando uma oração ensinada pela presidência, deixou o presidente desviar a atenção para a entidade em regresso do Jardim das Oliveiras.

— Que há? — perguntou-lhe.

— Que deseja? — interrogou a médium.

— Que novidades temos? — inquiriu o presidente.

— Que quer? — interpelou a entidade.

— Quero que me ensine o que aprendeu.

— A vida material é uma ilusão.

Interrompeu-a, com um protesto, o sr. João Cândido:

— Não é uma ilusão. É uma missão. Para você compreender melhor. Deus diz: “Vai, eu te empresto quatro cruzados e você traz vinte de juros”. Os juros são os adiantamentos das nossas imperfeições.

Findo esse transe e o que se lhe seguiu, depois de uma prece encerrou-se a sessão e continuaram os trabalhos.


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Houve novos transes dos médiuns, sendo despachadas, mediante preces, sem interrogatórios, as entidades supostas em atuação sobre eles. Julgando-se, por fim, que, para fazer-lhe passes, viera um protetor incorporar-se ao sr. Aventino, pediu-lhe o presidente:

— Vai à rua São Francisco Xavier, n. 170; vê se há alguém doente e se há espíritos por lá.

Passados minutos, o médium informou:

— Lá estão cinco pessoas.

Houve um movimento de espanto do casal das joias.

Continuando, disse o médium que havia uma pessoa doente, nem velha nem moça, e que entre os espíritos que lá estavam, figurava o que fizera soar a campainha da casa.

A cada informe, trocava o casal um olhar de espanto. Pediu, então, o sr. João Cândido que fosse conduzido ao Círculo a entidade a que se referira o médium. Entrando, após minutos, em transe, o sr. Laudelino, ao ser interrogado, disse não ter residência, andar pelos arvoredos, nas praças públicas. Quanto ao caso da campainha, disse que, realmente, por duas vezes, apalpando-a, tentara fazê-la retinir.

Depois de doutrinada a entidade que se supunha assim manifestar-se, terminaram definitivamente os trabalhos.

Conversamos, então, com o casal residente na rua São Francisco Xavier, n. 170. Disseram-nos, marido e esposa, que, havendo soado, em sua casa, por duas vezes, sem que se abrisse a porta, uma campainha de alarma que só retine quando se abre a porta, fizeram-na examinar por um eletricista e nada havendo sido constatado que explicasse a sua ressonância anormal, tinham vindo estudar o caso em uma sessão espírita, não acreditando, embora, no espiritismo. Confirmaram que, realmente, em sua residência, àquela hora, deveriam estar cinco pessoas, sendo duas da vizinhança, uma das quais, de meia-idade, está doente. Ao terminar essa conversa, a sala estava deserta.

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