A base moral do vegetarianismo

Quando recebi o convite para comparecer a esta reunião, não imaginam quanto me senti satisfeito, pois esse convite veio reviver em mim lembranças e recordações de agradáveis laços de amizade formados com vegetarianos. Sinto-me especialmente honrado por ter, neste momento, à minha direita, o dr. Henry Salt. Foi o livro do dr. Salt, Apologia do Vegetarianismo, que me fez ver por que razão, além de ser um hábito hereditário, e da minha adesão a um voto que me fora pedido por minha mãe, é correto ser vegetariano. Mostrou-me que é dever moral, para os vegetarianos, não viver à custa dos nossos companheiros, os animais. Por conseguinte, é um prazer adicional reencontrar o dr. Salt.

Não pretendo ocupar-lhes o tempo contando-lhes as minhas variadas experiências como vegetariano, nem tampouco falar-lhes das grandes dificuldades que enfrentei em Londres para manter-me firme na minha posição de vegetariano. Gostaria, porém, que compartilhassem comigo de alguns dos pensamentos que se têm desenvolvido em mim com relação ao vegetarianismo. Naqueles tempos, quase não havia um só restaurante vegetariano em Londres que eu não conhecesse. Não só por curiosidade, mas também para estudar as possibilidades do vegetarianismo e dos restaurantes vegetarianos em Londres, resolvi visitar cada um deles. Nada mais natural, portanto, que estabelecesse um relacionamento estreito com muitos vegetarianos.

Ao sentar-me à mesa com eles, descobri que as conversas versavam, na sua maior parte, sobre alimentação e doenças. Descobri, também, que os vegetarianos que lutavam para manter-se firmes no vegetarianismo encontravam dificuldades em praticá-lo do ponto de vista da saúde. Não sei se, hoje em dia, os senhores mantêm debates desses, mas naquele tempo eu costumava comparecer a discussões entre vegetarianos e não-vegetarianos. Recordo-me de uma dessas discussões entre o dr. Denmore e o falecido dr. T. R. Allinson. Nessa época, os vegetarianos tinham o costume de não falar de outra coisa que não fosse a alimentação e as doenças. Acho que não há pior maneira de encarar a questão. Notei também que as pessoas que se tornam vegetarianas por sofrerem desta ou daquela doença, ou seja, do simples ponto de vista da saúde, são as que, em sua maioria, abandonam, depois, o vegetarianismo. Descobri que, para manter-se fiel ao ideal vegetariano, precisa-se ter uma base moral.

Incompatibilidade entre egoísmo e evolução.

Essa foi, para mim, uma grande descoberta, na minha busca da Verdade. Muito cedo, no decurso das minhas experiências, constatei que, com uma base egoísta, não se poderia cumprir o propósito de impelir o homem cada vez mais para diante, no caminho da evolução. O que faltava era um propósito altruísta. Descobri, também, que a saúde não é, de modo algum, monopólio dos vegetarianos, pois conheci muita gente que não tinha qualquer preconceito, num ou noutro sentido, e verifiquei que não-vegetarianos também podem ostentar, falando-se de maneira geral, boa saúde. Vi também que, para vários vegetarianos, tornara-se impossível continuar a sê-lo, por terem convertido a alimentação num fetiche e pensarem que, tornando-se vegetarianos, poderiam comer quantas lentilhas, quanto feijão e quanto queijo quisessem.

Naturalmente, essas pessoas não podem, de maneira alguma, conservar boa saúde. Observando esse processo, constatei que um homem é capaz de comer sem qualquer restrição e jejuar, de vez em quando. Nenhum homem ou nenhuma mulher comia realmente de maneira excessiva, ou consumia a quantidade exata que o corpo exigia, e nada mais. Podemos ser presa fácil das tentações do paladar e, por conseguinte, quando algo nos parece delicioso, não nos importa comer um ou dois pedaços a mais. Mas nessas circunstâncias não se pode conservar a saúde. Por causa disso, descobri que, para manter a saúde, não interessa o que se come, e sim reduzir a quantidade de alimentos e diminuir o número de refeições. Sejamos moderados: é melhor errar para menos do que para mais.

Quando convido amigos para comer comigo, nunca os pressiono para que comam mais do que lhes faz falta. Pelo contrário, digo-lhes que, se não quiserem, não comam mais.

A base do meu vegetarianismo

O que desejo ressaltar é que os vegetarianos têm que ser tolerantes, se quiserem converter outras pessoas ao vegetarianismo. Tenhamos humildade! Apelemos para o sentido moral das pessoas que não veem as coisas como nós as vemos. Se um vegetariano adoece e, a conselho do médico, tome caldos de carne, é óbvio que eu não o considero vegetariano. O vegetariano é feito de material mais resistente. Por quê? Porque visa à construção do espírito, e não do corpo. O homem é algo mais do que simples carne. E é o espírito o que mais nos interessa no homem. Por conseguinte, os vegetarianos deveriam ter essa base moral: a convicção de que o homem não nasceu animal carnívoro, e sim para viver das frutas e das ervas que a Terra nos dá. Sei que todos temos que estender a mão à palmatória. Eu abandonaria o leite, se pudesse, mas não posso. Fiz essa experiência inúmeras vezes. Depois de grave doença, não pude recuperar as forças sem passar a beber leite. Essa tem sido a tragédia da minha vida. A base do meu vegetarianismo não é física, mas sim ética. Se alguém me advertisse de que eu morreria se não ingerisse caldo de carne, ainda mesmo que sob receita médica, eu preferiria morrer. Essa é a base do meu vegetarianismo. Gostaria muito de poder acreditar que todos nós, que nos chamamos vegetarianos, temos essa mesma base. Há milhares de comedores de carne que deixaram de comê-la. Tem que existir alguma razão determinante para modificarmos a nossa vida, para adotarmos hábitos e costumes diferentes dos da sociedade, ainda mesmo que, por vezes, possamos ofender aqueles que nos cercam e nos são queridos. Por nada deste mundo deveríamos sacrificar um princípio moral. A única base para termos uma sociedade vegetariana é, e tem que ser, portanto, de caráter moral. Decerto, não lhes vou dizer, enquanto percorro o mundo de um extremo ao outro, que os vegetarianos, em sua totalidade, gozam de melhor saúde que os carnívoros. Pertenço a um país que é predominantemente vegetariano, por costume ou por necessidade. Por conseguinte, não posso dar testemunho de que isso demonstre muito mais paciência, muito mais valor ou uma percentagem muito menor de doenças; e isso porque é uma coisa muito peculiar, muito pessoal. Requer obediência, e uma obediência muito escrupulosa a todas as normas da higiene.

Superioridade das consequências morais sobre as fisiológicas

Acho, portanto, que o que os vegetarianos deveriam fazer é não acentuar as consequências físicas do vegetarianismo, e sim investigar as suas consequências morais do vegetarianismo. Apesar de ainda nos não termos esquecido de que possuímos muitas coisas em comum com os animais, não nos damos suficiente conta de que há várias outras coisas que nos distinguem deles. Não há dúvida de que a vaca e o touro são vegetarianos (e melhores do que nós), mas há algo muito mais elevado que nos atrai para o vegetarianismo. Por isso, pensei que, nos poucos minutos de que disponho para me dirigir aos estimados confrades, deveria acentuar a base moral do vegetarianismo. E devo acrescentar que descobri, por minha própria experiência e pelas experiências de centenas de amigos e camaradas, que eles encontram satisfação na base moral que escolheram para fundamentar o vegetarianismo.

Concluindo, agradeço a todos os que aqui vieram, dando-me assim o grande prazer deste encontro com vegetarianos. Não posso garantir que os tenha conhecido há quarenta ou quarenta e dois anos.

Suponho que os rostos dentro da Sociedade Vegetariana de Londres tenham mudado. Existem muito poucos sócios que, à semelhança do Dr. Salt, possam afirmar que a sua filiação a esta Sociedade data de mais de quarenta anos. Gostaria que, se quisessem, me fizessem perguntas, pois disponho de alguns minutos para responder-lhes.

Pediram, então, a Gandhi que expusesse as razões que tinha para limitar a sua dieta diária a apenas cinco produtos alimentícios. Eis a resposta:

A serviço das leis da dieta e da economia.

A pergunta que me formulam não tem relação com o vegetarianismo... Houve outra razão. Por natureza, fui um desses rapazes que comem até se fartar. Adquiri, então, tal fama que, quando os amigos me convidavam a comer com eles, colocavam diante de mim travessas repletas de comida. Eu advertia-os de que tinha ido a sua casa para servir, e que me sentiria morrendo aos poucos se me permitisse fartar-me daquela maneira. Desse modo, ao limitar a minha refeição a cinco ingredientes, cumpria um duplo propósito. Além do mais, tinha que dar por encerradas todas as minhas refeições antes do pôr-do-sol. Salvei-me, dessa maneira, de muitos inconvenientes. Descobri, assim, muitas coisas referentes à saúde. Dizem os dietistas que cada vez mais tendemos à simplificação da dieta, e que, se queremos viver com saúde, devemos ingerir um só produto de cada vez e evitar combinações. Prefiro o processo da exclusão ao da combinação, e é de se notar que não há dois médicos que pensem, a este respeito, do mesmo modo.

Ganhe 15% de desconto na compra deste livro, usando o cupom:

1910-30HE-6LE7-HOCC

(o desconto só irá aparecer no fechamento do pedido, onde existe o campo para inserir o código de desconto acima).


Creio, portanto, que a limitação das refeições a cinco elementos nutritivos me ajudou moral e materialmente: materialmente, porque, num país pobre como a Índia, nem sempre é possível obter leite de cabra, e é muito difícil conseguirmos uvas e outras frutas. Por isso, quando visito gente pobre, se eu esperasse que me recebessem com uvas, sem dúvida seria repelido. Deste modo, limitando-me a comer cinco espécies de alimentos, sirvo também às leis da economia.

Tudo que vive é teu próximo

Autores diversos

220 visualizações